Leitura bíblica: Génesis 50:15-21; Efésios 4:31-32; Romanos 12:17-21
Uma das decisões mais difíceis da vida cristã é perdoar alguém que nos fez mal. Quando somos vítimas de uma injustiça, de uma traição ou de palavras que nos feriram profundamente, é natural sentirmos tristeza, indignação e até o desejo de que a outra pessoa experimente o sofrimento que nos causou. Contudo, a Palavra de Deus chama-nos a uma atitude diferente. O perdão cristão não nasce da negação da injustiça, mas do reconhecimento de que Deus é justo e de que não devemos permitir que a amargura governe o nosso coração. Perdoar não significa declarar que o mal foi insignificante; significa recusar viver prisioneiro dele.
A história de José, relatada em Génesis 37–50, oferece-nos um exemplo extraordinário. Os seus irmãos, movidos pela inveja, venderam-no como escravo, provocando-lhe anos de sofrimento e separação da família. Mais tarde, quando José alcançou uma posição de autoridade no Egipto e os seus irmãos ficaram dependentes dele, teve oportunidade de se vingar. Contudo, reconheceu que, apesar da maldade dos seus irmãos, Deus tinha conduzido os acontecimentos para preservar muitas vidas. Em Génesis 50:20, José declara que os seus irmãos tinham intentado o mal contra ele, mas Deus o tinha encaminhado para o bem. José não chamou bem ao mal que lhe fizeram. Distinguiu a intenção perversa dos homens do propósito soberano de Deus. Esta distinção permite-nos reconhecer a injustiça sem concluir que ela tem a palavra final sobre a nossa vida.
O fundamento do perdão cristão encontra-se no próprio Deus. Paulo exorta os crentes: «Antes sede bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo» (Efésios 4:32, A21). O padrão não é a maneira como os outros nos tratam, mas a misericórdia que recebemos de Deus por meio de Jesus Cristo. Quando compreendemos a gravidade do nosso próprio pecado e a grandeza da graça divina, percebemos que não podemos exigir misericórdia para nós e, simultaneamente, alimentar deliberadamente o desejo de vingança contra os outros. Isto não significa que todos os pecados tenham consequências idênticas, mas que o cristão é chamado a abandonar o espírito vingativo e a agir segundo a graça que recebeu.
É igualmente importante compreender o que o perdão não significa. Perdoar não obriga a restaurar imediatamente a confiança, a retomar uma relação perigosa ou a permitir que alguém continue a praticar abusos. A reconciliação exige verdade, e a restauração da confiança pode exigir arrependimento demonstrado ao longo do tempo. Em certas situações, estabelecer limites e procurar protecção são medidas legítimas e necessárias. A Bíblia não nos manda chamar paz àquilo que permanece injusto, nem confundir amor com cumplicidade. O perdão trata da nossa disposição de abandonar a vingança pessoal; a reconciliação envolve também a relação entre as pessoas e depende de condições que nem sempre estão sob o nosso controlo.
Paulo aprofunda este princípio em Romanos 12:19, ensinando que não devemos vingar-nos, mas deixar lugar à ira de Deus. Esta orientação não significa que a justiça seja irrelevante ou que os crimes devam ficar impunes. Significa que não nos compete assumir o lugar de Deus, alimentando uma vingança pessoal. A justiça legítima, a protecção das vítimas e a responsabilização de quem pratica o mal continuam a ser importantes. Podemos procurar que a verdade seja conhecida e que as consequências adequadas sejam aplicadas sem cultivar o ódio. A diferença está em procurar a justiça por meios correctos, em vez de transformar a dor numa autorização para praticarmos também o mal.
Hoje, se existe alguém que te feriu, leva essa situação diante de Deus com sinceridade. Não precisas de fingir que não sofres, nem de minimizar aquilo que aconteceu. Reconhece a injustiça, pede ao Senhor força para abandonar o desejo de vingança e procura agir de acordo com a verdade bíblica. Talvez a reconciliação não seja possível neste momento; talvez a confiança tenha sido destruída e não possa ser restaurada. Ainda assim, podes começar por entregar a Deus o direito de julgar com perfeita justiça aquilo que não consegues resolver sozinho. O perdão não altera o passado, mas pode impedir que a injustiça sofrida continue a dominar o teu presente. Que o exemplo de Cristo te ajude a defender a verdade sem ódio, a procurar a justiça sem vingança e a conceder aos outros a misericórdia que tu próprio recebeste do Senhor.
