Tu és o responsável pela tua vida perante Deus

Aqui deixo um testemunho pessoal, onde relato o meu primeiro encontro com a responsabilidade, esse bicho que a par da culpa, tem também uma certa tendência a morrer solteira hoje em dia…

Não tinha mais que 5 anos. Sentado ao lado da minha tia naquele final de uma bela tarde primaveril, olhava a minha avó enquanto ela posicionava os pesados potes ao lume na preparação de mais um jantar. Os homens chegariam daqui a pouco vindos do campo, e convinha não os deixar à espera por muito tempo.

O meu avô, o meu tio e o meu primo chegariam com a boa disposição do costume, como se o dia não tivesse custado a passar, como se o trabalho do campo fosse um breve passeio à beira-rio. E como bons garfos que eram (que é algo genético aparentemente nesta família) o jantar era o coroar desse dia. O momento de reunião familiar após uma prolongada ausência de dez ou doze horas. Qual descanso do guerreiro, aquele jantar estava a ser preparado por aquelas experimentadas mãos. As mãos da minha avó.

Eu observava, ali sentado ao lar. A casa era uma típica e tosca casa de aldeia. Os anos pesavam sobre ela – não tinha estrebão – viam-se as rústicas telhas, e os caibros que as sustentavam. Fora construída e reconstruída pelo meu avô, carpinteiro de profissão e agricultor por necessidade. Com pouca ajuda, ali fora contruída aos poucos, o fruto de duas vidas, albergando agora seis almas naquela isolada aldeia Trasmontana. A minha mãe tinha emigrado para o Porto ainda jovem adulta, onde casara e trabalhava. Depois de eu nascer fui deixado aos cuidados dos meus avós e dos meus tios, pois a vida e os horários da cidade em 1974 não se compadeciam de quem não tinha mais família com quem deixar as crianças.

A minha avó não parava. A minha tia ajudava-a – chegava as couves, descascava batatas. Punha a parca mesa com os pratos lascados dos anos sobre o verde oleado, vincado e marcado. Um talher de cada nação. O garfo do meu avô era especial, de ferro maciço com um cabo quadrado – habituara-se a ele com o passar dos anos e estranhava usar outro, por isso aquele era sempre o dele. Os outros pratos eram ornados com os talheres que havia. Na maior parte das vezes nem se usava faca. Para comer batatas cozidas o garfo era suficiente. Para a sopa a colher bastava.

E naquele entardecer, ali sentado ao lar enquanto observava a minha avó, eu senti-me um previligiado, por poder estar ali com aquela heroína. Foi então que ela se sentou um pouco enquanto punha mais uma acha na fogueira e atiçava as brasas à esperava que a água levantasse fervura. Parecendo adivinhar o que me passava na alma, começou a falar sobre o meu avô.

Contou-nos de um certo momento na vida em que precisaram de pedir emprestado uma avultada quantia. Não havendo acesso ao crédito, o meu avô recorreu a um amigo e vizinho da aldeia que a vida beneficiara. Não emprestava a todos, pois nem todos sabiam honrar os compromissos. O meu avô foi pedir-lhe o dinheiro emprestado. Ao que ele respondeu prontamente: “Para ti, Joaquim, sempre! Sempre que precises tens aqui uma porta aberta! E se algum mês não puderes pagar, fala comigo que tudo se arranja!” O meu avô era um homem sério, do género de homem capaz de empenhar as barbas pelas suas convicções e pelos seus princípios – era de uma espécie que hoje está em rápidas vias de extinção…

Mal tinha acabado de imaginar e digerir aquela cena, já ela me apontava a conclusão: “Sabes, é por isso que se alguma vez não tiveres dinheiro, tens a tua honra para mostrar. Vais lá e falas com quem tiveres que falar, de cabeça erguida. Se fores sério e trabalhador, as portas estarão sempre abertas para ti.”

Ainda hoje estas palavras ecoam na minha mente.

Olhando agora à volta para a sociedade, vejo a cultura da irresponsabilização. Pode fazer-se praticamente tudo sem consequências praticamente nenhumas. A sociedade desculpabiliza o indivíduo, dizendo que foi o meio-ambiente que o forçou a ter um comportamento desviante. O criminoso foi forçado a isso pelas suas condições sócio-económicas e pelos malvados filmes e jogos. O insolvente foi aliciado pelos bancos e por isso gastou demais – mas basta ao pobre coitado abrir insolvência para escapar impune, e depois esperar cinco anos para poder voltar ao ponto de partida, apagando o registo de dívidas. Pode engravidar-se que tudo se resolve sem grandes complicações (a não ser as psicológicas). Pode praticar-se o sexo sem pudor algum, pois isso até está na moda e quem não está “in” está “out”…

Mas não é isso que vejo na Bíblia. Na Bíblia vejo que cada um é responsável pela sua própria vida, e por ela dará conta um dia. Sem desculpas, sem subornos, sem ajuda de ninguém.

Precisamos de mais homens e mulheres da cepa do meu avô – homens e mulheres honrados, que não fujam às responsabilidades; que não se desculpem com o mau exemplo do vizinho ou do governante; que vivam a vida de cabeça erguida, com honra e princípios.

Para reflexão, aconselho o Capítulo 12 do Evangelho de Lucas:
http://www.bibliaonline.com.br/acf/lc/12